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Futebol malcriado

Vai ter gente dizendo que Neymar é uma farsa, um produto da mídia, que não joga 10% do que falam e que se preocupa mais com o penteado que vai usar do que com a bola que vai chutar. Vai ter quem diga que a culpa é exclusivamente de Rafael, Oscar, Sandro, Ganso, João, Maria ou José. Vai ter também, claro, aquele grupo grande e chato comemorando como um título de campeonato esta e qualquer derrota da “Seleção da CBF”.

Faltou técnico? Faltou. Mano Menezes até hoje não encontrou um caminho a ser seguido, convocou e escalou mal para os Jogos. O mérito tático do México, mesmo com jogadores tecnicamente abaixo dos nossos, nos faz imaginar o que poderíamos ter apresentado em Londres. Mas também faltou projeto olímpico? Faltou. Porque eu não sei, em que mundo, bradar e exigir uma medalha de ouro, a quatro meses da competição, pode ser chamado de projeto. Na verdade,  nunca houve uma atenção real para o torneio. Que eu saiba, planejar exige, no mínimo, metas e objetivos claros e consistentes. Bem diferente dos diversos caminhos que este time ameaçou trilhar para depois pegar outro rumo diferente. E, se a Copa do Mundo de 2014, na verdade, for o objetivo final, é preocupante que essa Seleção Brasileira que vimos em campo contra o México seja a base para algum futuro. E isso é muito mais preocupante do que a cor da medalha que foi para o peito desses jogadores.


Independente de todos os erros e de quem comanda ou não a Seleção Brasileira, nunca deixei de torcer pela Amarelinha. Sofri quando aquela cabeçada de Oscar, no último minuto do jogo e que levaria a disputa para a prorrogação, não entrou. Acho, no entanto, que esse ouro é uma obsessão de um país futebolisticamente mimado. Que tem a prepotência de achar que deve ter tudo sempre e que é incapaz de analisar seus próprios erros. Como os pais de uma criança que esperneia e grita na porta de uma loja por um brinquedo, mas são incapazes de perceber ou assumir a culpa que carregam pela malcriação. É assustador a quantidade de pessoas que costuma deixar passar batido o real significado da palavra malcriação. Ela precisa de mais de um sujeito para existir.

É aquela velha lição de bom senso que não é por que não conquistou a medalha que essa geração de Neymar, Oscar, Lucas deve ser crucificada e tachada como um completo fracasso. Assim como o panorama não seria o melhor, caso o ouro tivesse vindo. Que sirva para algum tipo de reflexão dos pais dessa criança. Torci pela medalha de ouro, mas a verdade é que ela não me fez muita falta. Existem outros motivos muito mais importantes para batermos o pé até 2014.

E já que estamos falando de Seleção Brasileira, vale refletir um pouquinho sobre esse distânciamento da torcida na coluna “Ame a sua Seleção”, escrita há pouco menos de um ano. O triste é que nada mudou.

PRETINHO BÁSICO
Assim como em 1984, quando perdeu para a França, nas Olimpíadas de Los Angeles, e em 1988, quando foi derrotada pela extinta União Soviética, em Seul, a seleção brasileira ficou com o vice-campeonato olímpico nos Jogos de Londres. O Brasil tem ainda duas medalhas de bronze, em 1996, em Atlanta, e 2008, em Pequim.

ESPORTE FINO
O próximo compromisso da Seleção Brasileira é um amistoso com a Suécia na próxima quarta-feira (15). A partida marca a despedida do Estádio Rasunda, em Estocolmo, palco do primeiro título mundial da Seleção em 1958. Em setembro e outubro, o Brasil faz amistosos com China e Japão, respectivamente.

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Sobre deuses e homens

Uma dessas histórias de deuses e fantasias conta que há muitos e muitos anos, Hércules, filho de Zeus, o deus grego supremo, matou um homem em um dia difícil, por um motivo bobo. Arrependido, então, ele teria criado as Olimpíadas para pedir desculpas ao pai e aos outros deuses. Mitologia a parte, a verdade é que os gregos inventaram os jogos para exibir suas habilidades e agradar aos deuses do Olimpo.

Muito tempo se passou desde o primeiro registro dos jogos em 776 antes de Cristo. Mundos giraram, mares subiram e baixaram, tochas olímpicas se acenderam e se apagaram e, hoje, acho difícil que algum atleta, até mesmo os gregos, pense em subir ao pódio para agradar Zeus, Apolo, Atenas, Afrodite e companhia. Lá do alto do monte sagrado onde moram, no entanto, se eles olharem com atenção, serão capazes de perceber a inversão.

Deuses são os outros. Aqueles que começaram a correr numa estrada de barro, que tiveram que abandonar a família para mergulhar em águas distantes, que treinaram descalços, que choraram, que sentiram dor. Que passaram por cima da pobreza de um país que pouco sabe criar seus atletas. Que ignoraram a incompetência de tanta gente pequena, num território de possibilidades tão gigantescas. Que transformam um sistema educacional tão cheio de falhas e que pouco os incentiva num improvável e invertido patrocínio para sonhos olímpicos. Porque deuses mesmos são esses brasileiros que vencem cada desafio e dificuldade que lhes é apresentado durante todos os outros dias, além destes quinzes de Olímpiadas, a cada quatro anos, a que os mortais assistem.

Por isso, da próxima vez que você se sentir no direito de cobrar uma medalha de um nadador, cobre uma piscina olímpica em Salvador, por exemplo.  Na realidade local, mas que está longe de ser exclusiva, você pode bradar também que não temos ginásios ou campeonatos estruturados em vez de xingar a queda de um atleta.  Quando ousar desdenhar de uma derrota na expectativa de uma medalha, experimente conhecer um pouco mais da história de quem está ali. Dificilmente, ela terá qualquer traço de decepção. Decepcionante mesmo é saber que quando a pira olímpica é apagada no fim dos jogos, não é apenas o fogo que some. Quantas vezes você ouviu o nome de Sarah Menezes, primeira mulher brasileira a ganhar uma medalha de ouro no judô nas Olimpíadas, nos últimos quatro anos?

Na sua famosa Odisséia, Homero, poeta épico da Grécia Antiga, afirma que “Todo homem precisa dos deuses.” Já passou da hora, no entanto, de aprendermos que os deuses também precisam do suporte dos homens. Medalhas virão, derrotas também – e, sim, elas serão maioria, mas quem disse que a vitória está exclusivamente na cor de um metal pendurado no peito? Não é difícil perceber que já existe uma coroa de louros, planta que representava a vitória na Grécia e na Roma antigas, em cada um dos 259 “deuses” brasileiros em Londres e todas elas têm um brilho dourado.

Pretinho Básico
A delegação brasileira em Londres conta com os superpoderes de 132 homens e 123 mulheres, de 32 modalidades. Nas Olímpiadas de Pequim, em 2008, foram 277 inscritos, a maior já inscrita pelo Brasil. Nos últimos jogos, o Brasil também igualou seu recorde em números de medalha, foram 15, como em Atlanta em 1996.

Esporte Fino
Até ontem, só uma mulher brasileira havia conseguido o ouro em prova individual na história das Olimpíadas: Maurren Maggi, no salto em distância, em 2008. A 16ª medalha do judô em Olimpíadas tornou a modalidade, provisoriamente, na mais vencedora na história do Brasil nos Jogos, superando a vela, que acumula 15 medalhas.

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