Arquivo de março 2011

Palavras únicas

Todos nós precisamos ler o dia a dia dos assuntos que nos interessa. Tricolores, rubro-negros, alvinegros, colorados, “bicolores e colores” de todos os tipos, no cotidiano, se deparam com aqueles textos básicos sobre seus times. Fulano de tal se machucou, sicrano de cá voltou a treinar, a equipe x venceu o jogo diante do time y e blá blá blá. Troque as palavras com as iniciais maiúsculas e o texto pode passear nos jornais do Oiapoque ao Chuí.

De vez em quando, felizmente, vem alguém pra brincar com as palavras e transformá-las em muito mais do que informações. Era o caso do mestre Armando Nogueira, que nos deixou órfãos de sua poesia, há exatamente um ano. Este, sim, sabia usar as palavrinhas mágicas como ninguém. Mesmo nas horas em que disse não saber onde elas estavam (como no texto reproduzido abaixo, um dos meus favoritos), desconfio que ele tinha uma biblioteca de palavras só pra ele. Absolutamente únicas.

México 70 – Armando Nogueira
E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.

Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.

E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.

O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.

Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.

Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.

Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.

Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.

Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.

Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.

Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.

A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.

Até que os deuses do futebol inventem outra.

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O balé do Ganso

Entre milhões de qualidades que uma pessoa pode ter, a elegância é uma das que mais admiro. Talvez por isso tenha me apaixonado tanto pelo balé, atividade que pratico há mais de 20 anos. No futebol, essa característica não poderia deixar de me encantar.

Diferente da maioria dos torcedores que encontra logo um ídolo artilheiro pra chamar de seu, goleadores e centroavantes nunca fizeram meus olhos brilharem. Claro, vibrei pelo baixinho Romário, me surpreendi com a força e técnica de Ronaldo e sorri feito boba, mais recentemente, com a habilidade de Neymar. Todos são atacantes muito diferentes e cheios de qualidade pra torcedora nenhuma colocar defeito. Nenhum deles, no entanto, me conquistou. No outro extremo do campo, o goleiro, ídolo inicial de muita gente (Taffarel que o diga), também nunca ganhou meu coração.

Colocando no ritmo da canção infantil: “Terezinha de Jesus / De uma queda foi ao chão / Acudiram três cavalheiros / Todos chapéu na mão / O primeiro foi seu pai / O segundo seu irmão / O terceiro foi aquele / Que a Tereza deu a mão”, o meu tal terceiro escolhido, futebolisticamente falando, só poderia ser o meia. Mas não é qualquer um desses jogadores que povoam o meio: tem que ser um daqueles chamados “meias clássicos”.

Desses elegantes e inteligentes cada dia mais raros. Daqueles que você olha as passadas largas, passes geniais, jogadas fantásticas e tem certeza: não tem ninguém igual! Alguém tipo e exclusivamente (na atualidade) como Paulo Henrique Ganso. Não é necessariamente uma questão de qualidade, de ser melhor ou pior. É questão de estilo. Diferente dos dribles desconfortantes de Messi, das arrancadas de Ronaldo e do domínio de bola de Neymar. Estes, por mais geniais que um deles já foi, que outro é e que o mais novo do trio ainda pode ser, não têm a característica de pensar e perceber o jogo. De ser o regente e o dono de uma partida durante os 90 minutos.

No passado (e não tenho restrição em ser uma saudosista saudável), esse jogador era mais comum. Os esquemas táticos tinham um lugar reservado para eles e todo time tinha o seu, guardada as devidas proporções, é claro. Hoje, três hermanos que não jogam nem na Seleção de seu país são os que chegam mais perto da posição por aqui. Por tudo isso, pra mim, Ganso é um alento, uma esperança. Um estranho no ninho que tem tudo pra se tornar o pássaro mais colorido e afinado do mundo da bola.

Uma das características mais maravilhosas de uma bailarina é não deixar o público perceber o quanto é difícil (e dolorido) estar ali, na ponta dos pés. No campo, como num palco, Ganso nos dá a certeza que jogar futebol é a coisa mais simples do mundo. Nos ilude, como a bailarina, que basta levantar da arquibancada para sair bailando.

PRETINHO BÁSICO
Paulo Henrique Chagas de Lima, 21 anos, nasceu em Ananindeua (PA) e chegou ao Santos em 2005. Começou a aparecer em 2009, no Campeonato Paulista; e, em 2010, foi o jogador destaque do ano até sofrer séria contusão em agosto. Enfrentou a segunda cirurgia séria nos joelhos (uma em cada) e voltou a jogar este mês.

ESPORTE FINO
É difícil encontrar jogadores que atuem como Ganso na atualidade. No passado, os brasileiros Didi, Gérson, Rivellino, Ademir da Guia e Dirceu Lopes foram maestros na posição. Mais recentemente, Rivaldo deu o tom da música. Nas últimas décadas, o francês Zidane foi o maior meia-armador que vi em campo.


			

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Do gramado ao teclado
 
Desde pequena, eu nunca consegui entender muito bem certos aspectos de ter um ídolo pra chamar de seu. Claro, vivi minha fase menininha de gostar de uma ou duas boy bands e passei pela época de me apaixonar por um roqueiro e de sonhar com um autógrafo numa camisa usada por um jogador de futebol. Eu nunca me interessei, no entanto, por aquela parte de saber se a casa do cantor tinha piscina e muito menos a raça do cachorro dele. Nunca me interessei pelos casos amorosos, escândalos e banalidades daquela astro do rock ou pela hora que Juninho Pernambucano (meu primeiro ídolo no futebol) almoçava, saía pra treinar ou sei lá o que.
 
Com o avanço da internet e redes sociais esse lado do “ser celebridade” avançou mais que lateral habilidoso liberado pra atacar. Por isso que quando soube da existência do twitter, achei surreal que as pessoas estariam interessadas em saber que horas alguém sai de casa, toma sorvete ou vai dormir. Por azar (ou sorte) do destino, tive que criar uma conta e usar o twitter por um determinado tempo para escrever uma matéria. Foi aí que percebi o quanto aquela ferramenta poderia ser interessante. Esqueça a baboseira do cotidiano de cada um, saiba filtrar as informações (e de quem você recebe as mensagens) e você tem nas mãos uma possibilidade incrível de interação com pessoas que jamais teria contato na vida “real”.
 
Tá certo, Clara, mas o que é que o meu futebol querido de todos os dias tem a ver com isso? Tudo, digo eu. Já tem tempo que o futebol avançou as quatro linhas do gramado e entrou com bola e tudo na rede, neste caso, a mundial e virtual mesmo. Todo mundo analisa os jogadores, destrincha os esquemas táticos e sabe de cada passo dos jogadores praticamente em tempo real. O twitter, portanto, não poderia ficar de fora desse time. Basta entrar lá, pra saber novidades do astro Cristiano Ronaldo à Ramon do Bahia e Elkeson do Vitória, passando por Kaká, Ronaldo e outros.


 
Mas, se tem espaço pra falar, tem espaço pra errar. Os 140 caracteres permitidos a cada postagem podem parecer pouco, mas não se iludam, têm um poder de transformar um 4-4-2 em  4-5-1. O atacante Kleber, do Palmeiras, dia desses, se manifestou contra o técnico Luiz Felipe Scolari e Zezinho, essa semana, deixou o recado que paciência tem limite, claramente insatisfeito por ficar de fora do jogo de hoje. Sei não, se todo técnico resolver marcar de perto seus jogadores, vai ter gente correndo o risco de pular fora, neste caso, dos gramados. Bom senso, caros twitteiros, é algo que vale mais do que  140 carecteres.
 
Ba-Vi virtual 
Na onda virtual, vale  parabenizar quem merece e puxar a orelha de quem anda pisando na bola, ou esquecendo dela. O Bahia está bombando no twitter e facebook, conectado e antenado com seus torcedores. Já o último tweet do Vitória, foi escrito em setembro de 2010. Vamos ver o que esse Vitória Webdesk vai trazer…
 
PRETINHO BÁSICO 
Rede tricolor: Zezinho (@zezinho_90), Ramon (@RamonLagge_17), Dodô (@Dodopires92), Boquita (@boquita18), Tressor (@tressormoreno10), Rafael (@Rafael09Oficial), Omar (@omar_reis), Ávine (@Avine_6), Danny Morais (@Danny_Morais14), Titi (@TitiC13), Luizão (@luizao_rl ), Thiego (@THIEGO25).
 
ESPORTE FINO 
Para seguir o Leão: Elkeson (@elkesonoliveira), Junior Timbó (@juniortimbo), Julian Viáfara (@julianviafara), Edson (@Edsonreis90), Arthur Maia (@Arthurmaia10), Gabriel Paulista (@GabriPaulista03), Esdras (@esdrassilvaa), Vitor Saba (@vitorsaba). Craques: Kaká (@RealKaka), Neymar (@Njr92), Cristiano Ronaldo (@cristiano).

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Procura-se um camisa 9

Em um certo momento da minha infância tive uma pequena obsessão por animais extintos ou ameaçados de extinção. Não me perguntem o porquê, decorei os principais bichinhos nas tais condições e vira e mexe dava um jeito de falar que o pássaro Dodo, das Ilhas Maurício, não existia mais, que a Baleia-azul estava sumindo e que o mico-leão-dourado e a ararinha azul precisavam ser protegidos.

Nunca pensei que depois de encontrar minha verdadeira obsessão, digo, vocação, voltaria a pensar na mania infantil. Mas não é que também existem “personagens” sumindo no futebol? Pense bem, qual é o clube brasileiro atualmente que pode bater no peito e gritar: “Tenho um camisa 9 matador e gols não me faltará”? Pode ir lá no Flamengo, no Santos, no Bahia, no Vitória, no Atlético-MG, no Palmeiras, Cruzeiro e outros que é bem capaz de você encontrar uma plaquinha na entrada: “Procura-se um camisa 9 que saiba fazer gols e esteja em boa fase”.

Por aqui na terrinha, Bahia e Vitória estão sofrendo com a falta de um homem-gol. O Tricolor até que tem gols no currículo, mas o artilheiro da equipe, com apenas três gols, é Camacho, jogador do meio de campo. Souza e Robert, que, na teoria, chegaram para resolver a parada ali na pequena área, na prática, estão sumindo, sumindo… No Vitória, a coisa também não está boa. Neto Baiano já começou a ser vaiado pela torcida, fez apenas três gols, o mesmo que os meias Nikão e Geovanni.

Se a gente pensar mais alto, no caso da Seleção Brasileira, a coisa não melhora. Nossos camisas 9 estão parando, envelhecendo, cada vez mais ameaçados de extinção. Com o anúncio da fim da carreira  do Fenômeno, o Brasil também aposentou seu último grande goleador. Antes de pendurar as chuteiras, apenas Túlio, (ainda em atividade aos 41 anos e atualmente no Botafogo-DF) tinha mais gols do que ele. Numa lista dos artilheiros em atividade feita pela revista Placar na edição deste mês, a idade chama atenção. A média dos dez primeiros colocados é de 35,5 e apenas três jogadores têm menos de 35 anos. O décimo colocado é justamente o mais jovem (com 30 anos) e o mais novo reforço que chega ao futebol brasileiro.

Se a Copa do Mundo começasse hoje, talvez o Fabuloso fosse a melhor opção para carregar o bendito número na amarelinha (pausa fashion: o que é aquela faixa verde na nossa camisa? No amistoso contra a França, já entramos perdendo de 10×0 no quesito beleza do uniforme). Mas, além de não estar numa fase maravilhosa para 2014, a idade não ajuda o jogador. Os saudosos Ademir de Menezes, em 1950, Vavá, em 1962, Pelé, em 70, Careca, em 90, Romário em 94, e claro, o Fenômeno, em 2002, tinham entre 25 e 29 anos.

Neste clima de “alerta vermelho”, comemoro a volta do Fabuloso ao futebol brasileiro torcendo que suas atuações multipliquem os filhotinhos da espécie centroavante no Brasil.

PRETINHO BÁSICO
Atrás de Camacho, no Bahia, Ávine, Jones, Souza e Jael (agora na Portuguesa) têm dois gols. Maranhão, Tressor Moreno, Ramon, Bruno Paulo, Marcone, Rafael, Marcos, Hélder e Maurício marcaram um. No Leão, Edson e Rildo deixaram dois e Elton, Alison, Elkeson, Viáfara, Júnior Timbó, Nino Paraíba e Uelliton, um.

ESPORTE FINO
No ranking dos dez maiores goleadores da revista Placar, Túlio é o primeiro com 777 gols. Marcelo Ramos é o segundo com 435 gols, seguido de Rivaldo (409), Jardel (358), Dodô (335), Alex (328), Kleber Pereira (319), Magno Alves (280), Liédson (268) e Luis Fabiano (266). Ronaldo parou com 473 gols na carreira.

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