Arquivo de setembro 2012

Só o futebol não é o bastante

Minha mãe é, provavelmente, a pessoa mais fanática por futebol da família. Ela que me vestia de verde e amarelo nos jogos da Seleção Brasileira e que me contava histórias dos jogadores e times. Só soube que aquilo não era tão comum quando percebi que a maioria das minhas amiguinhas não sabia nada sobre futebol, não torcia para um time e que seus irmãos não trocavam figurinha dos campeonatos brasileiros com elas.

Nesta semana, a Pluri Consultoria divulgou uma pesquisa feita somente com mulheres, investigando seu interesse pelo futebol. O primeiro dado que chama atenção é quanto à presença delas nos estádios: nos últimos 24 meses, apenas 6% das entrevistadas tinham ido a um jogo de futebol. Mais importante, os motivos relatados por elas para não ir ao estádio é que revela um perfil completamente diferente do típico torcedor de arquibancada. Segundo a pesquisa, a condição dos banheiros (81%), a falta de segurança (64%), não gostar de futebol (38%), a falta de cobertura nos estádios (34%), o preço dos ingressos (32%) e a falta de companhia (14%) são os principais fatores que afastam as mulheres dos estádios.

Diferente do que já ocorre em boa parte da Europa, os estádios no Brasil ainda são um templo de sofrimento (e eu não estou falando da derrota do seu time). O torcedor, homem ou mulher, que cresceu em arquibancadas mal cuidadas, aguentando banheiros em péssima situação e passando “perrengue” pra chegar e pra sair, isso quando não correndo de briga, vai ao estádio exclusivamente pelo futebol, apesar de tudo. Já os novos torcedores, em grande parte mulheres, exigem mais do que bola rolando em campo.

Tenho uma amiga que morou um ano na Espanha e foi ao menos a cinco partidas nos estádios espanhóis, mas não conhecia nenhum no Brasil. Não é uma questão de falta de interesse ou frescura. Ela, assim como muitas outras, faz parte de um novo perfil de torcida, que ainda é muito pouco explorado por aqui.

Contando com os 12 estádios em construção ou reforma no país, para sediar a Copa de 2014, e que terão cobertura, não é impossível resolver os problemas relatados (alguns são bem simples, convenhamos). Num efeito cascata, a solução de um deles influencia na melhora de todos. Até quem não gosta, pode se interessar simplesmenmte pelo passeio agradável.

A pesquisa pontua ainda que a presença das mulheres aumenta o consumo, no estádio e fora dele, de produtos e serviços relacionados aos clubes, inibe a violência; dá ao evento um perfil de “mais festa” e “menos guerra”, desperta maior interesse de mídia e patrocinadores e favorece a formação de novos torcedores, pelo aumento natural do número de crianças nos estádios. Difícil mesmo é saber o que falta para que os clubes invistam.

Pretinho basico
A pesquisa foi realizada em seis cidades – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Salvador – e ouviu um total de 1.122 mulheres, acima de 16 anos de idade. Perguntadas se iriam aos estádios caso os problemas relatados fossem resolvidos, 41% responderam positivamente

Esporte fino
Os 12 estádios da Copa 2014: Fonte Nova; Arena das Dunas (Natal); Castelão (Fortaleza); Arena Pernambuco; Arena Amazônia; Estádio Nacional Mané Garrincha (Brasília); Arena Pantanal (Cuiabá); Arena Corinthians (São Paulo); Maracanã; Mineirão (BH); Arena da Baixada (Curitiba); Beira-Rio (Porto Alegre).

Comments Nenhum comentário »

Santos divulga versão de “Call Me Maybe” com Neymar, Muricy e companhia


Quem nunca ouviu o hit chicletinho ‘Call Me Maybe’ da cantora canadense Carly Rae Jepsen? Ninguem, né? Eu, você, a torcida do Bahia, do Vitória, do Flamengo, Vasco, Corinthians, Santos e por aí vai já escutou ao menos uma vez a musiquinha que virou sucesso por aí.

Pois a Santos TV, canal oficial do time de Neymar e Cia, decidiu entrar na dança e lançou um vídeo bastante divertido embalado pelo sucesso pop nesta terça-feira (25). A gente já sabe que Neymar adora uma presepada, mas até o técnico Muricy Ramalho (isso mesmo!!!) participou da brincadeira! Patito Rodriguez, o goleiro Aranha e outros jogadores, além do assessor de imprensa do clube, Fábio Maradei, seguranças, funcionários da Vila Belmiro e torcedores participam da versão.

Achei super divertido!

Comments 1 comentário »

Amigos, amigos, Seleção à parte

Eu não sei se isso também acontece com os homens, mas nós, mulheres (muitas, senão todas), temos mania de separar amigas por categoria. Tem aquela amiga que é a primeira para quem você liga quando está triste e quer um ombro pra chorar, uma que é perfeita para sair à noite, aquela que você consulta na hora de comprar um livro, a que é parceira ideal de viagens e por aí vai.

Torcidas de futebol também se comportam assim. O cara que vai ao estádio sofrer pelo seu time não é o mesmo que paga R$ 80 pra gritar pela Seleção Brasileira uma vez a cada, sei lá, cinco anos. O torcedor que carrega o seu time nos braços, seja na hora da vitória ou no rebaixamento, não é o mesmo que vai se divertir em um jogo do Brasil. Pode ser até a mesma pessoa, mas não é o mesmo torcedor.

20120924-121345.jpg

Quem vai a um jogo da Seleção Brasileira quer ser entretido. Não precisa ser necessariamente pela vitória. O torcedor que vaia o time de Mano Menezes enquanto dá risada, come pipoca, tira uma foto e posta numa rede social seria incapaz de fazer a mesma coisa durante um momento ruim do seu clube de coração. O torcedor que protesta contra alguma coisa no seu clube (pacificamente, claro, porque, se tem violência, é marginal), o faz por sofrimento, paixão e dedicação. Já os protestos nos últimos jogos da Seleção Brasileira foram feitos por “diversão”. Não que as pessoas ali sejam insensíveis aos jogadores que estão em campo, ou não pagariam ingresso para vê-los. A noção, no entanto, de que devem receber algo em troca é bem diferente daquela do cara que economiza durante uma semana no almoço pra poder apoiar seu time. E entenda, não importa se você não tem que fazer esse tipo de sacrifício, é a ideia de que você faria se precisasse, ou o sentimento de que você compartilha da mesma doação incondicional.

A equipe comandada por Mano Menezes, claro, piora a situação. Os 11 jogadores em campo não têm uma cara que os defina. O craque do grupo ainda não inspira confiança em muita gente. Não há um líder carismático em campo e não se sabe nem quem é o goleiro desse time. Ainda: o calendário cria um conflito óbvio entre o torcedor de clube e o da Seleção. É preciso que a Seleção ofereça muito mais para que, eventualmente, o torcedor que veste amarelo fale mais alto do que aquele que torce pelo clube. Enquanto um dá notícias todas as quartas e domingos, o outro mal aparece para uma visita anual. O clube está na categoria de amigo que pode ligar na madrugada chorando pedindo colo. A Seleção, não.

Pretinho básico

A Seleção fez 152 jogos após ser pentacampeã, há dez anos, na Copa do Japão e Coreia: 27 foram no Brasil. Neste período, passou por quatro continentes (não esteve na Oceania) e jogou em 94 cidades diferentes: 15 do Brasil. Em Londres, foram nove partidas, seis no Emirates Stadium, inaugurado em 2006 e o mais usado.

Esporte fino
Em 2012, a Seleção Brasileira fez 16 jogos, incluindo os seis da campanha olímpica. Nesse período, foram 13 vitórias e três derrotas (duas para o México e uma para Argentina). Apenas três das 13 vitórias, no entanto, foram contra adversários do top 10 no ranking da Fifa (Dinamarca, Inglaterra e Argentina).

Comments Nenhum comentário »

Escolha o nome do mascote da Copa (ou não)

Há pouco mais de um mês, escrevi aqui a noticia boa de que poderíamos participar da escolha do nome da bola da Copa 2014. Infelizmente, contei também a noticia ruim de que os nomes não eram lá dos mais interessantes. Daí a gente recebe a notícia de que vai poder escolher o nome do mascote do Mundial e quando você pensa que não poderia ser pior, descobre que tudo, claro, pode piorar.

Eu até gostei do Tatu-bola. Ele é colorido, ele é simpático, ele é representativo, ele é divertido e ele permite que a gente brinque com “bola”. Você corre, então, lá no site oficial da Fifa, pra descobrir as três opções de nome para o coitado do bichinho. São eles: Amijubi, Fuleco e Zuzeco. Eu juro, se a gente tentasse, com muito esforço, não conseguiria escolher nomes piores.

Assim como fiz com os nomes da bola (que agora parecem maravilhosos), vamos falar um a um de cada sugestão para o tatu. Mas, resumindo, a FIFA errou feio nas escolhas. Achei de uma falta de sensibilidade e de inteligência sem tamanho.

FULECO
Defesa da FIFA: Fuleco é a mistura das palavras “futebol” e “ecologia”, dois componentes fundamentais da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014. O nome do nosso mascote mostra como essas duas palavras combinam perfeitamente e ainda incentivam as pessoas a ter mais cuidado com o meio ambiente.
Comentário: Não é possível que ninguém tenha dito a Fifa que Fuleco é um belo de um “derivado” da palavra fuleiro, que num linguajar bastante conhecido por todo o país significa qualquer coisa que não tem muita qualidade, pra usar palavras educadas aqui. Eu não consigo acreditar.

AMIJUBI
Defesa da Fifa: Amijubi é a união das palavras “amizade” e “júbilo”, duas características marcantes da personalidade do nosso mascote e que refletem a maneira de ser dos brasileiros. Além disso, esse nome tão original está ligado ao tupi-guarani, em que a palavra “juba” quer dizer amarelo – a cor predominante no mascote!
Comentário: Amijubi?????? Eu não sei nem por onde começar. Além do fato de que parece nome de remédio, eu tenho certeza que a maioria da população brasileira nem sabe o significado de “júbilo”. E mesmo quem sabe, nunca deve ter usado essa palavra na vida. Eu, com certeza, nunca pronunciei essa palavra ou a utilizei em algum texto até hoje.

ZUZECO
Defesa da Fifa: Zuzeco foi formado dos elementos principais de “azul” e “ecologia”. Azul é a cor dos mares da maravilhosa costa brasileira, dos rios que cruzam o país e do nosso lindo céu. E é também, claro, a cor da carapaça especial do mascote. Ele sabe que pertence a uma espécie vulnerável e por isso, também sabe o quanto é importante divulgar e incentivar a conscientização ecológica entre seus amigos do mundo inteiro.
Comentário: Talvez seja o menos pior. Ainda assim, acho que o nome tem ZERO identificação com o país.

E vocês, o que acharam?

Comments 42 comentários »

Futebol de cabeça para baixo

Usamos a expressão ‘o mundo dá voltas’ para explicar diversas situações da vida. Aquela paixão que te esnobava na adolescência, mas, anos depois, resolve te dar bola quando você já está namorando. A empresa que não aposta no seu projeto quando você é estagiário e, tempos depois, te contrata para uma consultoria justamente sobre o tema, e por aí vai.

Em curto prazo, podemos até aplicar essa tese ao futebol. O clube que rejeitou aquele jogador pode pagar fortunas para tê-lo no futuro ou o interino que foi subestimado em 2009 e que parece ser a salvação dos problemas em 2012 (qualquer semelhança com a realidade atual do Palmeiras é mera coincidência). De fato, nem a torcida escapa: que torcedor do Bahia imaginaria gritar qualquer elogio para Jones Carioca? Está certo que, nesse caso, o mundo já deu outro giro (e voltou ao normal), mas isso é assunto para outra coluna.

Pensando num contexto geral e de maior duração, no entanto, o futebol é especialista em dar meia volta e deixar tudo de ponta cabeça. Veja só a figura do técnico: décadas atrás, seu papel era discreto e tido até, em certos casos, como irrelevante. A derrota da Seleção de 50, por exemplo, nunca foi creditada ao técnico Flávio Costa. A “indiferença da existência” de Feola, no primeiro título mundial do Brasil, virou folclore. O Expresso da Vitória, time vascaíno vitorioso por toda uma década, teve diversos técnicos e ainda assim seguiu vencendo. Lula,  que comandou o Santos entre 1954 e 1966 e foi bicampeão da Libertadores e do Mundial Interclubes, nunca esteve sob os holofotes dos feitos daquele time.

Mas a bola foi rolando, rolando… E parou no meio do caminho. Nas Copas mais recentes, é impossível separar as seleções do rosto de seus técnicos e o mesmo vale para muitos clubes. Foi a seleção de Telê, Parreira, Dunga ou o Grêmio de Felipão, o São Paulo de Muricy e tantos outros. Uma imagem única capaz de representar toda a pluralidade e caos (ou encaixe) de um time de futebol. A evolução do esporte, claro, contribuiu para que o papel do treinador crescesse. Até a Copa de 70, por exemplo, as substituições (de fato, ação que pode mudar um jogo) não eram permitidas. O futebol de antigamente também era muito mais dependente do talento individual.

Não acho que seja o caso do mundo dar sua volta completa nesse tema, mas ele poderia girar um pouquinho. Não defendo que técnico de futebol seja irrelevante. Seu nível de poder, inclusive, pode ser maior ou menor, conforme a situação. Em times com ambições limitadas, como o Bahia neste Brasileirão, ele tem um papel mais importante e a chegada de Jorginho no tricolor baiano mostra isso. No futebol, no entanto, o sol e a lua não devem nascer para eles. Esse privilégio deve ser exclusivo e sempre do jogador. Eles, sim, devem ser as estrelas, os cometas, os planetas…

Pretinho basico
Entre 1942 e 1952, o Expresso da Vitória do Vasco conquistou 11 títulos, incluindo 5 Cariocas (dois de forma invicta) e foi o 1º Brasileiro a ganhar um título internacional fora do Brasil. Lula, em quase 13 anos no Santos, conquistou 4 Torneios Rio-São Paulo, 5 Taças Brasil, 8 Paulistas, 2 Libertadores e 2 Mundiais de Clubes.

Esporte fino
Jorginho, no Bahia desde o dia 28 de agosto, comandou o Palmeiras interinamente em 2009, substituindo Vanderlei Luxemburgo, e, após sete jogos, com cinco vitórias, um empate e uma derrota, foi substituído por Muricy Ramalho. No tricolor baiano, Jorginho tem cinco jogos: três vitórias e dois empates.

Comments 2 comentários »

O que realmente te leva ao estádio?

Quem lê esta coluna sabe que um dos motivos pelos quais eu gosto de ir ao estádio é o sorvete de coco melado de cajá (ou umbu) naquela casquinha meio mole que não encontramos em nenhuma rede de sorveterias por aí. Particularidades desse tipo levam indivíduos aos estádios e as razões podem mudar, mas torcedor de verdade não vai ao jogo para ver seu time ganhar. Vai para sentir. A vitória ou a derrota.

Recentemente, ouvi flamenguistas dizerem que são indiferentes a este time que jogou contra o Coritiba ontem. Não sei o que pode ser mais triste: torcedores apáticos ou uma administração que não faz nada pra mudar isso. É patético que o Flamengo tenha apenas a 16ª média de público no campeonato. E não me venham com a história de que a culpa de apenas 2.627 pessoas irem assistir ao clube de maior “torcida” do país na 22ª rodada é a falta do Maracanã. O Atlético-MG não tem o Mineirão e ainda assim leva 18.365 na média por partida. Aí você me diz: “Mas o Galo está brigando pelo título”. Te respondo: “E o Bahia, sem a Fonte Nova desde 2007, e com apenas um título estadual nos últimos dez anos, que tem média de 15.593 neste Brasileirão?”. E olha que o número é baixo. No ano passado, o Bahia terminou o ano com a 2ª maior média da Série A (22.741).

Pra mim, existem dois principais motores para a emoção que leva os torcedores ao estádio. O primeiro é o lógico: posição do time na tabela, briga pelo título, artilheiro do campeonato. Essa é a alavanca que levou, por exemplo, 31.894 rubro-negros baianos ao jogo contra o Criciúma, na última terça-feira, ou que colocou 32.255, no mesmo Barradão, contra o CRB, na despedida de Neto Baiano do Vitória. E não há facilidade alguma pra chegar ou sair do Barradão, vale lembrar. O time, no entanto, tem feito sua parte. Louca é a torcida que não vai ao estádio participar dessa campanha do Vitória, que dificilmente deixará escapar o título da Série B.

O outro motivo é mais abstrato, bem mais importante e bem mais complicado de entender (e explicar). É a paixão que ignora posição na tabela, derrotas e divisões. É o fator “mágico” que faz do Santa Cruz, por exemplo, seja nas séries D, C ou B, líder no assunto e que coloca as regiões Norte e Nordeste no foco quando falamos de público. É o irracional que faz a média de público na Série C ser maior que a da Série B.

O eixo Rio-São Paulo domina o futebol desde que a bola é bola. Nos últimos 20 anos, times de outros estados levantaram a taça apenas três vezes. Até agora, no entanto, na Série A, apenas dois paulistas (e nenhum carioca!) figuram no ranking dos dez melhores públicos do campeonato. Longe de mim dizer que falta paixão, mas, claramente, estão faltando motivos por lá. Tem alguma coisa muito errada quando transporte, estádio distante, sorvete ruim, time que não está brigando pelo título ou sei lá o que são desculpas maiores do que esse motivo mais importante. Que não tem nome e não tem razão, mas simplesmente te faz chegar ao destino.

Pretinho básico
No top 10, o líder de média de público da Série A é o Corinthians (25.732) seguido de Grêmio (19.059), Atlético-MG (18.365), Sport (17.040), São Paulo (15.800), Bahia (15.593), Cruzeiro (13.300), Coritiba (12.939) e Náutico (11.766). Líder de público na Série C, o Santa Cruz é o 2º no geral com 22.314.

Esporte fino
Em 2011, o Santa Cruz (36.916 em oito jogos), na Série D, foi o líder de público geral do Brasileirão, Corinthians (29.424 em 19 jogos) ficou em segundo e Bahia (22.741, 19 jogos), em terceiro. Neste ano, a média da Série A é de 12.031; na Série B, 4.271 (recorde em Vitória 1×0 CRB), na Série C, 4.468.

Comments 4 comentários »

Nem tanto, nem tão pouco

Na vida em geral, o jovem está na seguinte alternativa:  – ou é um Rimbaud ou, então, um débil mental, desses que babam. Acontece a mesma coisa no futebol: – o jogador brotinho ou é um gênio da bola ou um perna de pau irremediável. Tem vitalidade, sim, mas uma vitalidade cega, obtusa e irresponsável.”

O trecho acima foi retirado de uma coluna de Nelson Rodrigues (sim, eu ainda estou inspirada pelo centenário de nascimento do jornalista, completado em agosto), publicada em 1956. Segue, logicamente, atual. Quem acompanha um pouco mais o dia a dia dos clubes, vira e mexe escuta maravilhas de um novo meninote da base que tem talento, velocidade, inteligência tática, visão de jogo e habilidade de fazer inveja a Messi. Quando esse, ou outro menino, aparece no time profissional e não rende como um craque em alto nível, ele se torna um autêntico pereba imprestável sem futuro.

Exageros à parte, é preciso encontrar o meio-termo dessas duas fases desse ser. Sabe aquela história que ouvimos numa certa idade de que somos jovens demais para fazer ou entender tal coisa, mas ao mesmo tempo já somos maduros o suficiente para assumir certas responsabilidades? É mais ou menos por aí que se encontra o jogador de futebol que sobe da base para o profissional.

Sejamos razoáveis, minha gente. Não dá pra esperar que cada moleque de 20 anos que faça sua estreia no Campeonato Brasileiro se torne o artilheiro da competição ou carregue o time nas costas. Eles podem estar prontos para subir de categoria (e isso não significa serem jogados em campo, como titulares, com o time na zona de rebaixamento), mas ainda não estão completamente amadurecidos para comandar (muito menos salvar) um time. É aquela coisa, o fato de você ter idade suficiente para, sei lá, ficar em casa sozinho com sua irmã mais nova, não significa que você pode virar a noite jogando videogame antes de ir para a escola. E, no caso dos times de futebol, é o clube (direção, comissão técnica e tudo mais) que deve ter essa responsabilidade com os garotos.

No empate do Bahia contra o Atlético-GO, na 18ª rodada, o lateral Jussandro, da base tricolor, fez sua estreia no time principal. Ouço falar desse garoto pelo Fazendão desde o ano passado. No Campeonato Baiano, ele fez apenas uma partida contra o Atlético de Alagoinhas, em abril, quando o Bahia já estava classificado e a equipe titular estava sendo poupada. No Brasileirão, Jussandro deve fazer hoje seu terceiro jogo, enquanto o volante Helder foi improvisado na função em oito oportunidades. Aí eu pergunto: doeu colocar o menino pra jogar? Não, muito pelo contrário. Jussandro mostrou que, independente de se tornar um jogador maravilhoso no futuro, ou não, já poderia estar sendo útil ao Bahia há mais tempo.

Nos erros, a torcida pode até reclamar, cornetar, chamar de perna de pau, para no minuto seguinte, de uma boa jogada, achar que o garoto deve ir para a Seleção Brasileira. Faz parte do seu papel passional. Bem diferente do que devemos esperar e cobrar do clube. E já que estamos falando de maturidade, já passou da hora de o Bahia aprender essa e outras lições. Porque, se o Bahia não sabe administrar nem essa responsabilidade sobre aqueles que são o seu futuro, vai eternamente correr o risco de comprometer outras conquistas da sua “idade”.

Pretinho básico
Além de Jussandro, de 20 anos, Gabriel, 22, é o único jogador que veio da base do Bahia na provável equipe que entra em campo hoje. O meia-atacante figura no time profissional desde o ano passado. Também da base, o goleiro Omar é reserva de Lomba.

Esporte fino
Até agora, o Bahia aproveitou sete jogadores da base no decorrer da Série A. Jussandro fez duas partidas, Gabriel participou de 11 e o lateral-esquerdo Ávine foi titular em seis. O atacante Rafael participou de quatro jogos (um como titular), o meia Vander, de sete (dois como titular), o goleiro Omar defendeu o time duas vezes e o zagueiro Dudu entrou uma vez.

Comments Nenhum comentário »


Warning: readfile(../ga.txt): failed to open stream: No such file or directory in /home/claraalbuquerque/claraalbuquerque.com.br/wp-content/themes/mandigo/footer.php on line 356