Arquivo de julho 2014

100 anos de futebol numa nuvem qualquer

Hoje, lá de cima, o primeiro goleiro da Seleção Brasileira deve se lembrar de cada detalhe daquele dia, há exatos 100 anos, quando onze brasileiros entraram em campo contra os jogadores profissionais do time inglês Exeter City. Certamente, os torcedores que assistiam à partida no Campo da Rua Guanabara pensavam: “se todo grande time começa com um grande goleiro, nosso número um neste primeiro jogo da Seleção Brasileira (embora as camisas ainda não tivessem número) anuncia um futuro de primeiros lugares.”

Recorte de jornal com a primeira seleção brasileira. Em pé, no centro, Marcos Carneiro de Mendonça. Sentado, também no centro, Friedenreich.

O Brasil venceu aquele jogo, mas Marcos Carneiro de Mendonça saiu decepcionado. Para o goleiro, futebol era prazer. Para os adversários, resultado. Embalados pela cobrança profissional, disputavam os lances com mais força, enquanto os brasileiros jogavam em ritmo de diversão. Irritados com a derrota, os ingleses partiram pra violência. Rubens Salles foi atingido nas costelas e o craque Friedenreich perdeu dois dentes.

Marcos Carneiro de Mendonça Lá do céu, Marcos Carneiro de Mendonça avançaria alguns anos em sua memória. Ídolo em seu clube e de seu país, ainda jogou muitas partidas pela Seleção. Mas, aos 24 anos, com a chegada da profissionalização do futebol, as cobranças por resultado e obrigações, se afastou do futebol.

“Aquelas mudanças não me animavam”, diria, sentado numa nuvem ao lado do outro craque presente naquele jogo. “Nunca fui um entusiasta dessa profissionalização, sabe Fried, mas jamais imaginei que fosse caminhar para isso. Que veria o futebol brasileiro dessa forma. Que raios de profissionalismo é este que estamos vendo lá embaixo?”, completaria.

Friedenreich“E eu, caro amigo, imagine a minha decepção ao olhar para os campos brasileiros e pra essa seleção que temos hoje e provavelmente seguiremos tendo? Você sabe, desafiei meu pai, alemão, quando rejeitei jogar pelo Germânia, clube da rica colônia alemã e da sociedade paulistana daquela época. Jogamos juntos diversas vezes, você sabe que o estilo de jogo por lá não era o que eu procurava, não é? Aquele jeitão europeu de jogar futebol, pegado e quase violento, não combinava com o meu estilo. Mais de 100 anos depois, não me arrependo nem por um dia de ter ido para o Ypiranga, clube recém-promovido à Primeira Divisão da Liga Paulista de Futebol. Confesso, abro um sorriso toda vez que alguém insinua que o estilo atrevido, insinuante e bonito do futebol brasileiro começou comigo, mas é triste admitir que, hoje, olhando para o meu estilo, eu escolheria jogar pela Alemanha.”

“Realmente, Fried, deve ser ainda mais duro pra você ver esse futebol jogado por aí. Mas será que a coisa não muda depois do que aconteceu na Copa do Mundo?”

“Gostaria de acreditar que sim, meu eterno goleiro, mas não vejo motivos para pensar positivo. Tudo bem, tudo bem, sei que já tive minhas desavenças com a CBD, que hoje chamam de CBF. Você bem lembra, antes daquele Sul-Americano de 1919, quando conquistamos juntos o primeiro título para a Seleção Brasileira, cheguei a ser punido pela entidade. Diga-me, que culpa tive eu do Sul-Americano de 1918 ser adiado e eu já ter gastado o adiantamento recebido pra viagem? Mas, enfim, mágoas passadas, acho que concorda comigo quando digo que estes que estão à frente da CBF não estão preocupados com o futuro do futebol brasileiro. Enquanto tantas outras seleções evoluem e tentam jogar um futebol envolvente, interessante e bonito, vamos aguentar mais alguns anos de contra-ataque, bola parada, arrogância e atraso tático.”

“De fato, Fried. Se, há 100 anos, eu não gostava de futebol de resultado e não suportava ver nosso esporte ser jogado sem prazer, sem diversão e sem beleza, imagina agora?”

“Difícil, amigo, difícil. Quem sabe daqui mais uns 100 anos? Mas, enquanto isso, que tal visitarmos meu pai numa nuvem lá por cima da Alemanha? Veja só, há mais de 100 anos que o velho me chama e, finalmente, tenho vontade de atender ao pedido.”

E trocaram de nuvem.

P.S. Marcos Carneiro de Mendonça e Friedenreich estão no meu livro Os Sem-Copa pra quem quiser conhecer um pouco mais sobre eles.

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Futebol e lágrimas não caem do céu

Peço licença pra começar esse texto relembrando um outro, que escrevi em 2011, quando a Seleção Brasileira realizou seu milésimo jogo na história.

“A Seleção Brasileira nasceu pra mim na Copa de 1986. Muitos de vocês já conhecem essa história: eu não tinha completado três anos ainda, mas já adorava a farra do futebol. Na ocasião, uma de minhas avós, ao voltar de uma viagem com presentes para os netos, trouxe para meu irmão uma camisa da Seleção e, para mim, uma boneca. Era dia de jogo do Brasil e eu achei aquilo um absurdo. Do jeito que só uma criança faria, chorei e protestei pelo fato dele ter recebido um presente relacionado à festa da Copa do Mundo e eu não. Felizmente, minha mãe encontrou uma solução: tratou de escrever Brasil com lápis de cera verde numa folha de papel ofício e colou a “obra” numa camisa amarela que eu já tinha no armário. Estava pronta a camisa da Seleção Brasileira que, pela minha reação de felicidade e satisfação, era tão oficial quanto a que Falcão, Casagrande, Zico, Sócrates e companhia desfilavam nos campos do México.

Pra minha mãe, a Seleção Brasileira nasceu em 58, quando ela era arremessada pra cima por meu avô a cada gol do Brasil no nosso primeiro título mundial. Pra meu pai, foi na Copa do Mundo seguinte, quando a família toda se reunia em volta do rádio pra ouvir as partidas do time que conquistou o bicampeonato. Sempre tive a certeza que a cada partida, gol de Pelé e de Ronaldo, drible de Garrincha e Neymar, jogada de Sócrates e Ronaldinho, título, goleada ou derrota do Brasil, nascia uma Seleção Brasileira particular pra alguém. Umas mais espetaculares e outras sem muito brilho e com algumas cabeças de bagre dentro de campo, mas todas são especiais de alguma forma.”

Até as que perdem, acreditem. Em algum lugar, ela nasce de novo. E cresce. Porque lágrimas de bola não nascem de primeira. São trabalhadas, massacradas num tiki-taka interminável, incansável. Que passa a bola pra lá, a derrota pra cá, a bola pra lá, a vitória pra cá, a bola pra lá, a derrota pra cá, a bola pra lá, a vitória pra cá… e quando você menos espera, ou nem mais espera, a lágrima vem. Por isso, torcedor enganado, iludido, consciente, entendido, novo, velho, cascudo, sonhador, ou seja lá qual você for, pode chorar, se tiver vontade. Essas lágrimas não nasceram de uma bola de escanteio. Muito menos de uma bola perdida. Seus olhos não jogam por uma única bola. Jogam por pré-temporadas e campeonatos inteiros de posse de bola. Nada mais justo que caiam lágrimas.

Danilo Borges/Portal da CopaAssim como nada mais justo que caia futebol da Alemanha. Porque, pode ter certeza, a oitava final de Copa do Mundo da Alemanha não caiu do céu. Não tratarei aqui dos motivos, mas desde a constatação, apesar do vice-campeonato em 2002, de que o futebol local precisava de uma reformulação, as coisas foram repensadas. Da formação dos jogadores, passando pelos métodos de treinamento, até o estilo de jogo atual, muito mais jogado, talentoso e versátil. E, não se engane, a seleção da Alemanha é “apenas” o sétimo gol da goleada. Os outros seis foram/são dados na Bundesliga, jogo após jogo, estádio cheio após estádio cheio.

Pode ter sido um castigo cruel demais, especialmente para as crianças, que nada entendem dos meandros sujos da CBF ou da arrogância ultrapassada de quem a comanda, mas se houvesse justiça no futebol, a desorganização do futebol nacional seria a explicação para a derrota de hoje. A explicação está nos clubes da elite do futebol que iniciam uma temporada esgotante sem um período de treinamento decente e está nos clubes pequenos que penam pra jogar um estadual e acabam o ano em maio. Está também nos talentos que vão embora cedo porque não temos um campeonato nacional forte o suficiente. A explicação é dada toda quarta e domingo. Toda terça e sexta.

Confiar que um novo Pelé (ou Garrincha, ou Amarildo, no caso de precisar de um plano B, né?) vai cair do céu com o peso da camisa da Seleção Brasileira me parece longe do ideal. É preciso muito mais. É preciso pensar numa reformulação (o que não significa que somos os piores do mundo, não temos nada de bom e os 23 jogadores dessa seleção merecem ser banidos da seleção, por favor, hein?!). E isso tudo é dito, pelos que pensam futebol de forma séria, muito antes da derrota de hoje. Talvez, ela sirva pra que outras pessoas também digam. E que pra que outras pessoas também escutem o que é preciso ser dito (pelo Bom Senso F.C., por exemplo). Futebol não cai do céu. E é uma pena que a CBF siga abrindo seu guarda-chuva enquanto tantas lágrimas são treinadas.

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