Futebol e lágrimas não caem do céu

Peço licença pra começar esse texto relembrando um outro, que escrevi em 2011, quando a Seleção Brasileira realizou seu milésimo jogo na história.

“A Seleção Brasileira nasceu pra mim na Copa de 1986. Muitos de vocês já conhecem essa história: eu não tinha completado três anos ainda, mas já adorava a farra do futebol. Na ocasião, uma de minhas avós, ao voltar de uma viagem com presentes para os netos, trouxe para meu irmão uma camisa da Seleção e, para mim, uma boneca. Era dia de jogo do Brasil e eu achei aquilo um absurdo. Do jeito que só uma criança faria, chorei e protestei pelo fato dele ter recebido um presente relacionado à festa da Copa do Mundo e eu não. Felizmente, minha mãe encontrou uma solução: tratou de escrever Brasil com lápis de cera verde numa folha de papel ofício e colou a “obra” numa camisa amarela que eu já tinha no armário. Estava pronta a camisa da Seleção Brasileira que, pela minha reação de felicidade e satisfação, era tão oficial quanto a que Falcão, Casagrande, Zico, Sócrates e companhia desfilavam nos campos do México.

Pra minha mãe, a Seleção Brasileira nasceu em 58, quando ela era arremessada pra cima por meu avô a cada gol do Brasil no nosso primeiro título mundial. Pra meu pai, foi na Copa do Mundo seguinte, quando a família toda se reunia em volta do rádio pra ouvir as partidas do time que conquistou o bicampeonato. Sempre tive a certeza que a cada partida, gol de Pelé e de Ronaldo, drible de Garrincha e Neymar, jogada de Sócrates e Ronaldinho, título, goleada ou derrota do Brasil, nascia uma Seleção Brasileira particular pra alguém. Umas mais espetaculares e outras sem muito brilho e com algumas cabeças de bagre dentro de campo, mas todas são especiais de alguma forma.”

Até as que perdem, acreditem. Em algum lugar, ela nasce de novo. E cresce. Porque lágrimas de bola não nascem de primeira. São trabalhadas, massacradas num tiki-taka interminável, incansável. Que passa a bola pra lá, a derrota pra cá, a bola pra lá, a vitória pra cá, a bola pra lá, a derrota pra cá, a bola pra lá, a vitória pra cá… e quando você menos espera, ou nem mais espera, a lágrima vem. Por isso, torcedor enganado, iludido, consciente, entendido, novo, velho, cascudo, sonhador, ou seja lá qual você for, pode chorar, se tiver vontade. Essas lágrimas não nasceram de uma bola de escanteio. Muito menos de uma bola perdida. Seus olhos não jogam por uma única bola. Jogam por pré-temporadas e campeonatos inteiros de posse de bola. Nada mais justo que caiam lágrimas.

Danilo Borges/Portal da CopaAssim como nada mais justo que caia futebol da Alemanha. Porque, pode ter certeza, a oitava final de Copa do Mundo da Alemanha não caiu do céu. Não tratarei aqui dos motivos, mas desde a constatação, apesar do vice-campeonato em 2002, de que o futebol local precisava de uma reformulação, as coisas foram repensadas. Da formação dos jogadores, passando pelos métodos de treinamento, até o estilo de jogo atual, muito mais jogado, talentoso e versátil. E, não se engane, a seleção da Alemanha é “apenas” o sétimo gol da goleada. Os outros seis foram/são dados na Bundesliga, jogo após jogo, estádio cheio após estádio cheio.

Pode ter sido um castigo cruel demais, especialmente para as crianças, que nada entendem dos meandros sujos da CBF ou da arrogância ultrapassada de quem a comanda, mas se houvesse justiça no futebol, a desorganização do futebol nacional seria a explicação para a derrota de hoje. A explicação está nos clubes da elite do futebol que iniciam uma temporada esgotante sem um período de treinamento decente e está nos clubes pequenos que penam pra jogar um estadual e acabam o ano em maio. Está também nos talentos que vão embora cedo porque não temos um campeonato nacional forte o suficiente. A explicação é dada toda quarta e domingo. Toda terça e sexta.

Confiar que um novo Pelé (ou Garrincha, ou Amarildo, no caso de precisar de um plano B, né?) vai cair do céu com o peso da camisa da Seleção Brasileira me parece longe do ideal. É preciso muito mais. É preciso pensar numa reformulação (o que não significa que somos os piores do mundo, não temos nada de bom e os 23 jogadores dessa seleção merecem ser banidos da seleção, por favor, hein?!). E isso tudo é dito, pelos que pensam futebol de forma séria, muito antes da derrota de hoje. Talvez, ela sirva pra que outras pessoas também digam. E que pra que outras pessoas também escutem o que é preciso ser dito (pelo Bom Senso F.C., por exemplo). Futebol não cai do céu. E é uma pena que a CBF siga abrindo seu guarda-chuva enquanto tantas lágrimas são treinadas.

Um comentário para “Futebol e lágrimas não caem do céu”
  1. Gostei muito do seu texto!

    Pra mim, a seleção começou em 94. Lembro da dupla bebeto e romário, da falta do branco, dos pulos do taffarel e do chute na lua do baggio. Memórias da minha infância lá na querida paraíba. Como vc bem disse, esse dia de hoje ficará marcado na memória com uma lembrança de choro e raiva na cabeça dos nossos filhos, sobrinhos, netos ou irmãos para sempre. Espero que essa derrota seja o primeiro passo para a reformulação do nosso futebol como um todo, passando pelo calendário, seleções de base e valorização dos torcedores.

    Gosto muito das suas opiniões (como tb dos outros integrantes do EI).

  2.  
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