100 anos de futebol numa nuvem qualquer

Hoje, lá de cima, o primeiro goleiro da Seleção Brasileira deve se lembrar de cada detalhe daquele dia, há exatos 100 anos, quando onze brasileiros entraram em campo contra os jogadores profissionais do time inglês Exeter City. Certamente, os torcedores que assistiam à partida no Campo da Rua Guanabara pensavam: “se todo grande time começa com um grande goleiro, nosso número um neste primeiro jogo da Seleção Brasileira (embora as camisas ainda não tivessem número) anuncia um futuro de primeiros lugares.”

Recorte de jornal com a primeira seleção brasileira. Em pé, no centro, Marcos Carneiro de Mendonça. Sentado, também no centro, Friedenreich.

O Brasil venceu aquele jogo, mas Marcos Carneiro de Mendonça saiu decepcionado. Para o goleiro, futebol era prazer. Para os adversários, resultado. Embalados pela cobrança profissional, disputavam os lances com mais força, enquanto os brasileiros jogavam em ritmo de diversão. Irritados com a derrota, os ingleses partiram pra violência. Rubens Salles foi atingido nas costelas e o craque Friedenreich perdeu dois dentes.

Marcos Carneiro de Mendonça Lá do céu, Marcos Carneiro de Mendonça avançaria alguns anos em sua memória. Ídolo em seu clube e de seu país, ainda jogou muitas partidas pela Seleção. Mas, aos 24 anos, com a chegada da profissionalização do futebol, as cobranças por resultado e obrigações, se afastou do futebol.

“Aquelas mudanças não me animavam”, diria, sentado numa nuvem ao lado do outro craque presente naquele jogo. “Nunca fui um entusiasta dessa profissionalização, sabe Fried, mas jamais imaginei que fosse caminhar para isso. Que veria o futebol brasileiro dessa forma. Que raios de profissionalismo é este que estamos vendo lá embaixo?”, completaria.

Friedenreich“E eu, caro amigo, imagine a minha decepção ao olhar para os campos brasileiros e pra essa seleção que temos hoje e provavelmente seguiremos tendo? Você sabe, desafiei meu pai, alemão, quando rejeitei jogar pelo Germânia, clube da rica colônia alemã e da sociedade paulistana daquela época. Jogamos juntos diversas vezes, você sabe que o estilo de jogo por lá não era o que eu procurava, não é? Aquele jeitão europeu de jogar futebol, pegado e quase violento, não combinava com o meu estilo. Mais de 100 anos depois, não me arrependo nem por um dia de ter ido para o Ypiranga, clube recém-promovido à Primeira Divisão da Liga Paulista de Futebol. Confesso, abro um sorriso toda vez que alguém insinua que o estilo atrevido, insinuante e bonito do futebol brasileiro começou comigo, mas é triste admitir que, hoje, olhando para o meu estilo, eu escolheria jogar pela Alemanha.”

“Realmente, Fried, deve ser ainda mais duro pra você ver esse futebol jogado por aí. Mas será que a coisa não muda depois do que aconteceu na Copa do Mundo?”

“Gostaria de acreditar que sim, meu eterno goleiro, mas não vejo motivos para pensar positivo. Tudo bem, tudo bem, sei que já tive minhas desavenças com a CBD, que hoje chamam de CBF. Você bem lembra, antes daquele Sul-Americano de 1919, quando conquistamos juntos o primeiro título para a Seleção Brasileira, cheguei a ser punido pela entidade. Diga-me, que culpa tive eu do Sul-Americano de 1918 ser adiado e eu já ter gastado o adiantamento recebido pra viagem? Mas, enfim, mágoas passadas, acho que concorda comigo quando digo que estes que estão à frente da CBF não estão preocupados com o futuro do futebol brasileiro. Enquanto tantas outras seleções evoluem e tentam jogar um futebol envolvente, interessante e bonito, vamos aguentar mais alguns anos de contra-ataque, bola parada, arrogância e atraso tático.”

“De fato, Fried. Se, há 100 anos, eu não gostava de futebol de resultado e não suportava ver nosso esporte ser jogado sem prazer, sem diversão e sem beleza, imagina agora?”

“Difícil, amigo, difícil. Quem sabe daqui mais uns 100 anos? Mas, enquanto isso, que tal visitarmos meu pai numa nuvem lá por cima da Alemanha? Veja só, há mais de 100 anos que o velho me chama e, finalmente, tenho vontade de atender ao pedido.”

E trocaram de nuvem.

P.S. Marcos Carneiro de Mendonça e Friedenreich estão no meu livro Os Sem-Copa pra quem quiser conhecer um pouco mais sobre eles.

Um comentário para “100 anos de futebol numa nuvem qualquer”
  1. Nelina disse:

    BELO TEXTO!!!!

  2.  
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